Iniciativa ligada à Igreja Católica acolhe dependentes e codependentes químicos desde 2008
Texto: Natali Galvão
A Pastoral da Sobriedade de Matão completou, neste mês de janeiro, 18 anos de atuação no acolhimento e na recuperação de pessoas em situação de dependência química. Fundada em 2008 por Maria Inês Furtado André, a iniciativa nasceu a partir de uma experiência vivenciada fora da cidade e, ao longo dos anos, consolidou-se como importante rede de apoio para dependentes e familiares.
A história teve início quando Maria Inês conheceu o trabalho desenvolvido na Paróquia Imaculada Conceição, em Catanduva, por meio do padre Osvaldo Rosa e do agente da Pastoral da Sobriedade, Alcides Franco. Inspirada pelo Programa de Vida Nova — baseado em 12 passos —, decidiu levar a proposta para Matão ao retornar à cidade.
Ela apresentou a ideia ao então pároco da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Vila Pereira, padre Sérgio Paravani. Pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de conhecer oficialmente a Pastoral em um encontro diocesano, em São Carlos, o que fortaleceu a decisão de implantar o trabalho no município. A primeira reunião aconteceu em 9 de janeiro de 2008, com apoio das pastorais de Ibitinga e Tabatinga. Posteriormente, Maria Inês realizou o curso de formação de agentes e segue à frente da Pastoral até hoje.
Segundo a fundadora, a motivação para iniciar a iniciativa veio da necessidade de lutar pela vida de pessoas afetadas pelo álcool e pelas drogas — realidade que também tocava sua própria família. Entre os primeiros desafios esteve a formação de voluntários dispostos a assumir o compromisso com o programa.
Com o passar dos anos, a Pastoral ganhou reconhecimento da comunidade e passou a ser respeitada também por órgãos públicos. Entre momentos marcantes, Maria Inês destaca a atuação no Horto de Silvânia e a condução da Novena de Natal na Praça da Vila Pereira, experiências que reforçaram o vínculo com a população.
Atualmente, o trabalho atende dependências químicas — como álcool, tabaco, drogas e medicamentos —, além de dependências comportamentais — como jogos, compras e internet — e também dependência emocional. O acompanhamento ocorre por meio de reuniões semanais em formato de grupo de autoajuda, com orações, reflexões e partilhas em ambiente sigiloso.
Os encontros acontecem às terças-feiras, às 20h, na Sala de Catequese da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Vila Pereira), e às quintas-feiras, no mesmo horário, na Paróquia Santa Luzia (Jardim Popular). Cerca de 30 pessoas são atendidas atualmente, incluindo familiares — os chamados codependentes —, considerados parte fundamental do processo de recuperação.
A espiritualidade e o acolhimento sem julgamentos, inclusive diante de recaídas, estão entre os pilares da iniciativa. A Pastoral também realiza visitas domiciliares, acompanhamentos individuais e encaminhamentos para comunidades terapêuticas quando necessário. Embora ligada à Igreja Católica, a ação acolhe pessoas de outras religiões.
Para marcar os 18 anos de atuação, foi celebrada uma Missa em Ação de Graças na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no último dia 11, seguida de confraternização na Área de Lazer dos Comerciários. Maria Inês ressalta a fidelidade de Deus ao longo da caminhada e aponta como principal desafio atual a falta de novos voluntários. “A messe é grande, mas os operários são poucos”, afirma.
Ela deixa ainda uma mensagem de esperança: “A dependência química muitas vezes é vista como falha de caráter, e não como uma doença. Para quem enfrenta essa realidade, o primeiro passo é admitir que precisa de ajuda e acreditar que tudo pode ser transformado pela fé. Aos familiares, é preciso coragem para enfrentar a situação sem desespero, mas com amor”.
Acolhimento que transforma vidas
O impacto do trabalho ao longo dessas quase duas décadas é refletido em relatos de participantes. Eliana Franhan, hoje agente da Pastoral, conta que chegou ao grupo em 2010, quando enfrentava dificuldades para lidar com a dependência química do marido.
“A Pastoral me mostrou que a minha família não era diferente de muitas outras. Aprendi a conviver com essa realidade de forma mais leve e com esperança. Aqui somos uma família: apoiamos uns aos outros nos momentos difíceis, sem julgamentos”, afirma.
Já Marilene Rodrigues Bastos relata que buscou apoio em um período delicado vivido por seus familiares. “Meu cunhado, que participou da Pastoral por muitos anos, hoje está sóbrio há mais de três anos. Meu irmão também está se recuperando e está muito bem”, destaca.
Participante desde 2023, Marilene diz que o grupo também contribui para lidar com suas próprias questões emocionais. “O espaço de partilha e a vivência dos 12 passos me ajudam no tratamento da ansiedade. O trabalho voluntário deu novo sentido à minha vida. A Pastoral continua sendo uma presença constante de apoio e transformação”, conclui.
Legenda foto 1: Na Vila Pereira. Reuniões na Sala de Catequese da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro acontecem às terças-feiras
Crédito: Natali Galvão
Legenda foto 2: Maria Inês. “A dependência química é frequentemente vista como falha de caráter ou falta de força de vontade, e não como uma doença reconhecida pela medicina”
Crédito: Natali Galvão
